4.2.11
o fecho da casa da boneca: mais um prego no caixão do centro histórico.
No cruzamento da Praça D. Duarte com a Rua Grão Vasco, a Casa da Boneca era mais do que um estabelecimento comercial e ficou na memória de muitos viseenses que ali iam escolher os brinquedos para oferecer pelo Natal ou no dia de aniversário dos filhos, e sobretudo na memória das crianças que enchiam a loja para receber das mãos dos proprietários, João Nascimento e a esposa Maria Odete, bonecas e peluches que ofereciam, no Dia da Criança, aos alunos das escolas do primeiro ciclo.
Fundada há mais de 130 anos como loja de tecidos, a Casa da Boneca, assim chamada por ter uma boneca na montra, só há 28 anos é que passou a ser gerida por João Nascimento e Maria Odete Nascimento. Também a Feira de S. Mateus ficou marcada pela barraca da Casa da Boneca, onde os brinquedos faziam a alegria da pequenada. O sucesso durou até a chegada a Viseu do primeiro hipermercado de Belmiro de Azevedo que abriu três meses antes do Natal, quando a Casa da Boneca já tinha feito as encomendas para aquele época. Foi o primeiro revés. Depois a Câmara de Fernando Ruas deixou que as grandes superfícies cercassem a cidade por todos os lados, ao mesmo tempo que permitia que os empreiteiros construíssem novas urbanizações de forma pouco sustentada, descurando a reabilitação do edificado e levando ao despovoamento do centro histórico, que ficou com um terço das habitações em ruínas ou degradadas. O despovoamento do centro da cidade leva ao aumento da insegurança nas ruas e à agonia do comércio tradicional.
Hoje, o comércio de Viseu, no centro histórico, como nas restantes ruas do centro da cidade, vive a maior crise de que há memória. As falências sucedem-se a um ritmo vertiginoso. Nalgumas artérias, como na Avenida Capital Silva Pereira ou na Rua Direita, são os imigrantes chineses e indianos que ainda vão evitando a proliferação de lojas “entaipadas”.
Não foi só a concorrência dos hipermercados e de lojas chinesas que levaram ao encerramento da Casa da Boneca: João Nascimento já conta 83 anos e Maria Odete também já passa dos setenta. Mas, se não fosse a crise do comércio tradicional ainda se entreteriam ali por mais uns tempos.
Qualquer dia, o comércio do centro histórico de Viseu fica reduzido a bares e a funerárias, o que atesta bem a morte do centro histórico. Até já as farmácias estão a fugir, atrás das pessoas. A Farmácia Pinto fechou no Largo Pintor Gata, para abrir no Palácio de Gelo, o que - pasme-se! - mereceu a satisfação do presidente da Câmara pelo alívio que isso representaria para o trânsito no centro histórico. Dentro de dias será a vez da Farmácia Medicinal fechar as portas na Rua Direita, quando estiverem concluídas as obras da nova loja no Bairro de Marzovelos.
Depois dos deputados do PSD, do PS e do CDS terem inviabilizado uma moção do Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Viseu, no sentido de impedir a abertura das grandes superfícies ao domingo à tarde e feriados, tendo Fernando Ruas dito, na altura, que a sua decisão dependeria da resolução da Câmara de Aveiro, resta agora, aos comerciantes de Viseu, esperar que a petição que milhares de comerciantes de Aveiro vão apresentar, através da sua associação distrital, na autarquia aveirense, possa levar esta a não licenciar o alargamento dos horários, única forma de o presidente da Câmara de Viseu decidir defender os pequenos comerciantes da sua cidade.
14.1.11
solidariedade com mais um sem abrigo em viseu
Luciano Jacinto é um jovem de 34 anos que trabalhava na hotelaria em Tavira, até ficar sem emprego. Sem contrato, não teve direito a subsídio de desemprego. Saiu do Algarve e veio por aí acima à procura de trabalho. Não o encontrou em Beja, onde tinha família, nem em Leiria e, desde fins de Setembro, veio parar a Viseu. Desde então tem sobrevivido arrumando carros em frente ao Palácio de Gelo, come no restaurante social da Misericórdia de Viseu e tem dormido na rua, abrigado numa das entradas do Pavilhão Multiusos. Foi lá que o encontrámos há dias. Oferecemo-nos para o acompanhar ao Centro de Acolhimento Temporário da Caritas Paroquial de Santa Maria, mas disse que já lá tinha ido e responderam-lhe que tinham os (sete) quartos todos ocupados. Nada que nos surpreendesse uma vez que já em Novembro de 2008 batemos à porta daquele Centro co-financiado pela Segurança Social e pela U.E., para acolher um outro sem abrigo, e também na altura se limitaram a informar que tinham a lotação esgotada. Ligámos ao 144, número nacional de emergência social, do Instituto de Solidariedade e Segurança Social, que nos remeteu para a Segurança Social de Viseu. Mas Luciano recusou-se a lá voltar, porque das duas vezes que lá foi pedir apoio, responderam-lhe que não tinham verbas nem para alojamento, nem para o transporte de regresso a casa. Solidariedade só dos Bombeiros Voluntários que o deixavam tomar banho no quartel.
Recorremos então à Comunicação Social. A Caritas Diocesana não gostou que um jornal a confundisse com a Caritas Paroquial de Santa Maria e uma senhora ofereceu roupa do marido. Mas Luciano continuava a dormir ao relento. Telefonámos para a Unidade de Desenvolvimento Social da Segurança Social de Viseu. Não conseguimos falar com a Directora, nem com outra dirigente, só com uma estagiária que nos pediu o contacto telefónico e assegurou que a “doutora” fulana nos ligaria logo que regressasse. Passaram dois dias e o telemóvel não tocou, mas, entretanto, conseguimos arranjar um quarto com uma renda barata que Luciano pode suportar já que até arranjou um part-time, aos fins-de-semana, como disc jockey numa danceteria. O problema eram os cem euros da primeira renda que tinham que ser pagos adiantadamente, mas aí Luciano contou com a solidariedade da Conferência de S. Vicente de Paulo, associação católica sócio-caritativa.
Aproveitamos para avisar a Segurança Social de Viseu que já não vale a pena incomodarem-se a telefonar. Ah, é verdade: Luciano diz que tem descontado para a Segurança Social desde os 16 anos.
14.12.10
o princípio do fim de uma discriminação preconceituosa
No passado sábado, dia 11 de Dezembro, António e Pedro casaram-se em Viseu. Meio ano depois de a lei ter entrado em vigor, em Junho deste ano, já casaram, em Portugal, 842 homossexuais. Este casamento só foi noticia, por ter tido lugar na cidade onde, há cinco anos, agressões colectivas organizadas contra homossexuais levaram à realização de uma concentração contra a homofobia no Rossio de Viseu, que contou com a presença de trezentas pessoas e representantes de catorze organizações LGBT – lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros – nomeadamente, Panteras Rosa, Não te Prives, Clube Safo, PortugalGay, ILGA, Horus, associações de defesa dos direitos humanos como a Amnistia Internacional, APAV, Acção Justiça e Paz, SOS Racismo, Olho Vivo, e ainda representantes do PS, da JS, do PCP e do Bloco de Esquerda.
O Núcleo de Viseu da OLHO VIVO, ajudou a organizar a Concentração de 15 de Maio de 2005, pelo que não pode deixar de aproveitar a realização do primeiro casamento entre duas pessoas do mesmo sexo, em Viseu, para saudar a mudança de paradigma jurídico e social, que, ao desvincular o casamento da heterossexualidade, permitiu acabar com uma discriminação que violava a Constituição da República Portuguesa, que, no seu artigo 13º, (Princípio da igualdade), assegura que ninguém pode ser privado de qualquer direito em razão de, entre outros motivos, orientação sexual.
Também queremos reiterar o nosso repúdio por o governo ter cedido às pressões das forças mais conservadoras e retrógradas da nossa sociedade ao ter introduzido na lei o impedimento da adopção de crianças por casais homossexuais, que mesmo os detractores do diploma, no seu “argumentário”, consideravam inconstitucional. Note-se que nada impede que um(a) homossexual solteiro(a) ou a viver em união de facto possa adoptar uma criança, uma vez que os serviços da Segurança Social têm em conta, na análise criteriosa das candidaturas à adopção, a capacidade parental e não a orientação sexual de cada um.
Mas, apesar de o governo ter introduzido no diploma esta discriminação, esta lei coloca Portugal na linha da frente dos países que em todo o mundo respeitam, em toda a sua plenitude, os direitos humanos. Facto que merece ser assinalado, quando no passado dia 10 de Dezembro, nas vésperas do casamento, se comemorou a proclamação, na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1948, da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
debate sobre pobreza e exclusão social na livraria pretexto
Está patente na galeria da Livraria Pretexto, na Rua Formosa, em Viseu, até ao próximo dia 12, uma exposição fotográfica: “mal olhados” (de José Crúzio, José Leitão Silva e Rui Pêva), uma iniciativa da Zunzum – associação cultural, que também promoveu no passado dia 8, naquele espaço, uma tertúlia/ debate sobre o mesmo tema da pobreza e exclusão social.
Márcia Leite (actriz e membro da Zunzum, autora dos textos que acompanham as fotografias) falou da organização da exposição, e das dificuldades em conseguir captar imagens em certos meios, sobretudo com os novos pobres, a chamada “pobreza envergonhada”.
Carlos Vieira, membro do Núcleo de Viseu da Associação Olho Vivo, realçou o papel da cultura na tomada de consciência da exclusão, das privações e dos direitos, ponto de partida para os pobres romperem com a dependência do assistencialismo e da caridade que eterniza a pobreza e nega a cidadania, exigindo o acesso aos recursos necessários à sua autonomia. Criticou a incoerência dos políticos do “arco do poder”, cujo discurso de aparência humanista (presente no debate, Hermínio Magalhães, vereador da Câmara Municipal , defendeu uma nova economia, menos baseada na especulação financeira improdutiva) não bate certo com a recusa dos seus partidos em aprovar no Parlamento a taxação da antecipação da distribuição de dividendos ou das mais valias bolsistas, no país da U.E. com maiores desigualdades sociais (pior, só Malta) e refutou a ideia levantada no debate, de que a globalização tenha diminuído a pobreza no mundo.
No relatório da UNICEF de 1999 confirmamos que “ nos últimos 20 anos, apesar da economia mundial ter crescido a um ritmo exponencial, o número de pessoas que vivem na pobreza absoluta aumentou para 1200 milhões. Também o estudo da ONU, “Uma Globalização Justa”, de 2004, conclui que a globalização aumenta as desigualdades entre países ricos e pobres. Consultámos no site da ONU o ponto da situação do Objectivo de Desenvolvimento do Milénio de reduzir para metade a pobreza extrema e a fome no Mundo entre 1990 e 2015:
A ONU começa por exultar com a redução do número de pessoas que vivem abaixo do limiar de pobreza internacional de 1,25 dólares por dia (o Banco Mundial, em 2008, ajustou este limiar que era de 1 dólar, considerando a paridade do poder de compra) de 1,8 mil milhões para 1,4 mil milhões de pessoas, entre 1990 e 2005. “Os progressos alcançados até agora são, em grande medida, uma consequência do êxito extraordinário na Ásia, sobretudo no Leste Asiático. Em 25 anos, a taxa de pobreza no Leste Asiático baixou de quase 60% para menos de 20%. As taxas de pobreza deverão baixar perto de 5%, na China, e 24%, na Índia, até 2015.
Pelo contrário, foram poucos os avanços conseguidos no domínio da redução da pobreza extrema na África Subsariana, onde a taxa de pobreza diminuiu apenas ligeiramente, de 58% para 51%, entre 1990 e 2015. A África Subsariana, a Ásia Ocidental e algumas partes da Europe Oriental e da Ásia Central figuram entre as poucas regiões que provavelmente não alcançarão a meta do ODM que consiste em reduzir a pobreza.
Segundo estimativas do Banco Mundial, os efeitos da crise económica lançarão na pobreza extrema mais 64 milhões de pessoas, em 2010, e, em 2015 e nos anos seguintes, as taxas de pobreza serão ligeiramente mais elevadas do que teriam sido se não tivesse havido a crise, sobretudo na África Subsariana e no Sudeste Asiático.
Apesar de a percentagem de pessoas que sofrem de malnutrição e fome, no mundo inteiro, ter diminuído, desde o início da década de 90, os progressos cessaram desde 2000-2002. Estima-se que, em 2005-2007, o último período sobre o qual se dispõe de dados[1], o número de pessoas subalimentadas no mundo se elevava a 830 milhões, o que representava um aumento de 12 milhões em relação ao período 1990-1992.”
A “globalização”, entendida como a fase do moderno desenvolvimento económico capitalista, sob a ideologia do neoliberalismo, dos adoradores do “mercado livre” que sacrifica todas as regras, incluindo os direitos laborais, e os direitos humanos, ao objectivo do lucro máximo, produz mais riqueza mas não a redistribui com justiça, antes faz aumentar as diferenças entre os mais ricos e os mais pobres. É o que acontece em Portugal, um dos países mais assimétricos da Europa na distribuição dos rendimentos onde os 20% mais ricos ganham 6 vezes mais do que os 20% mais pobres.
26.11.10
dia internacional da eliminação da violência contra as mulheres
Ontem, 25 de Novembro, assinalou-se o Dia Internacional da Eliminação da Violência contra as Mulheres.
Segundo o Observatório das Mulheres Assassinadas, da UMAR – União das Mulheres Alternativa e Resposta, já levou, este ano, à morte de 39 mulheres às mãos assassinas de maridos, namorados ou ex-companheiros. Ainda o ano não terminou e já se verificaram mais 34% de assassínios de mulheres do que em 2009.
Houve ainda 11 vítimas associadas (muitas vezes o agressor mata também o novo companheiro da vítima ou os próprios filhos), o que dá um total de 50 mortes. Também as 37 tentativas de homicídio registadas este ano representam um acréscimo de 9 mortes em relação às 28 do ano passado.
Maria José Magalhães, presidente da UMAR, alerta os magistrados e as forças policiais para os dados que, no seu entender, provam que o aumento se deve à má aplicação da lei e não à falta de legislação que considera ser suficiente. "É preciso que toda a máquina judicial interiorize que a lei sobre a violência doméstica é para ser aplicada. E as forças policiais têm de ter uma maior preparação para saber avaliar as situações. Não é uma violência ligeira. É um crime de ódio”.
É que, actualmente, as mulheres, familiares e vizinhos apresentam queixa, ao contrário do que verificaram no início da criação do Observatório das Mulheres Assassinadas, em 2004. "Não se pode entender que um agressor de violência doméstica tenha uma decisão de tribunal de 'termo de identidade e residência'", argumenta a dirigente da UMAR. Estão a obrigá-lo a manter-se em casa e junto da mulher que maltratou” (DN, 25.11.2010)
Um homem de 74 anos foi, ontem, detido por ter ateado fogo à ex-mulher, em Avintes, Vila Nova de Gaia. Ele aguarda julgamento em Custóias. . Ela, de 68 anos, sofreu queimaduras do terceiro grau em 60% do corpo e está no hospital de Gaia.
Tinham-se casado em Agosto, mas bem cedo este segundo marido começou a agredi-la. Cansada das cenas de violência, Arminda deixou o marido, que passou a viver no próprio automóvel. (DN, idem).
No Tribunal de Viseu, há dois dias, foi lida a sentença do jovem David Saldanha que há um ano assassinou, selvaticamente, à marretada, a namorada, Joana Fulgêncio, quando esta lhe comunicou que queria acabar com a relação amorosa. Elza Pais, Secretária de Estado para a Igualdade, diz que a violência doméstica diminuiu 10% na última década, mas a verdade é que as mortes não têm diminuído. O governo comprou 50 pulseiras electrónicas (sem GPS, apenas avisam a vítima que o agressor quebrou a ordem judicial de afastamento) , mas os juízes só ainda as aplicaram a 21 agressores. Aliás, como diz a procuradora Aurora Rodrigues, da Associação Portuguesa de Mulheres Juristas, “se o agressor quiser matar, tira a pulseira e ninguém percebe. Não há um alerta a soar numa central, como na prisão domiciliária..” “Só a prisão garante que o agressor não vai fazer mal à vítima”, diz Paula Garcia, procuradora do DIAP de Coimbra.
Mais importante do que as casas de abrigo (manifestamente insuficientes) é inverter o processo de maneira a que seja o agressor a ser obrigado a abandonar a casa da família e não a vítima a ter que fugir do agressor.
Para além da anunciada formação de agentes policiais e da sensibilização dos magistrados, parece-nos fundamental o papel das escolas, nomeadamente, através da Educação Sexual, valorizando os afectos e censurando a violência no namoro,sensibilizando os jovens para os valores da liberdade e da igualdade. O ciúme advém do sentimento de superioridade e de posse, mas ninguém é dono de ninguém. Como dizia Vinícius de Moraes, no seu “Soneto da fidelidade”, “Eu possa me dizer do amor (que tive) :/ Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure.” É que a expressão litúrgica “unidos…até que a morte vos separe”,que muitos “católicos” levam à letra, a bem ou a mal, como se vê, tem tanto valor como a proibição papal do preservativo.
"Não me condenem a uma vida de dívidas". Os jovens britânicos já perceberam o embuste: vão ser eles, e não a decrepitude deste sistema económico, a pagar a factura.
Um blues (ou uma canção de revolta) para os dias que correm:
The Who - young man blues
pela paz no mundo: dissolução da nato
A Associação Olho Vivo esteve presente na Contra-cimeira da NATO e na
Manifestação Internacional Anti-NATO, em Lisboa, no passado fim-de-semana.
Também o Núcleo de Viseu da Olho Vivo foi convidado a intervir na acção “Juntos
pela PAZ”, que teve lugar em Viseu, no “Café Estudantino”, no dia 12 de Novembro,
promovido pela PAGAN – Plataforma anti-guerra, anti-NATO, que contou com
concertos das bandas Jah Riot, de Aveiro, e Roy de Roy, da Áustria, que animaram,
com música de muita qualidade, as muitas dezenas de jovens presentes.
A Olho Vivo expressa a sua indignação por muitos cidadãos estrangeiros,
incluindo alguns oradores da Contra-Cimeira que decorreu no Liceu Camões, de 19 a 21
de Novembro, terem sido impedidos de entrar em Portugal, pelo simples motivo de
virem participar em acções anti-NATO, como a grande e pacífica manifestação
internacional Anti-Nato, ou de possuírem material de propaganda anti-NATO. Tal
configura uma violação da Constituição da República Portuguesa, da Convenção
Europeia dos Direitos Humanos e da Carta dos Direitos Fundamentais da União
Europeia.
Recordamos que na passada segunda-feira, dia 22, fez precisamente vinte anos
que o Parlamento Europeu aprovou uma resolução condenando os exércitos
paramilitares clandestinos que altos-comandos da NATO, aliados à CIA e a serviços
secretos militares organizou durante 40 anos na Europa, com ligações à Máfia e a
grupos de extrema-direita, que só em Itália, provocaram 600 mortos em atentados e
massacres de civis, como o da Gare de Bolonha, para incriminar partidos de esquerda e
suster a subida eleitoral do PCI. Consta que em Portugal estiveram por detrás das
operações da PIDE e do exército colonial para assassinar Amílcar Cabral, Eduardo
Mondlane e Humberto Delgado. De resto, se não fosse o apoio da NATO a Salazar (a
ditadura não foi impedimento para Portugal ser membro fundador), talvez não
demorássemos tanto tempo a conquistar a democracia e a liberdade.
19.11.10
a nata do terrorismo
A Cimeira da NATO, no próximo fim-de-semana, em Lisboa, vai custar ao
país dez milhões de euros. Cinco milhões são para comprar 5 carros
blindados para a PSP. Só 2 é que vão chegar a tempo da cimeira, mas
serão precisos no futuro, diz o ministro Rui Pereira . Para
quê?...Responde Giampaolo Di Paola, chairman do Comité Militar da
NATO, no artigo publicado no DN sobre “O papel futuro da NATO”: “A
longo prazo, as mudanças climáticas podem exacerbar problemas globais
como a pobreza, fome, imigração ilegal e doenças pandémicas”. Eis as
guerras futuras da NATO. Claro que nunca se viu a NATO a distribuir
comida e medicamentos pelos pobres e doentes; mas já se viu o aliado
mais poderoso da NATO, os EUA, a distribuir napalm a ditaduras como a
de Salazar para queimar os povos das colónias em luta pela sua
libertação, bem como a distribuir, por via aérea, bombas de fósforo
branco e outras armas químicas proíbidas, sobre homens, mulheres e
crianças habitantes de Fallujah, mentindo ao mundo sobre as armas de
Saddam, apenas para saquear o petróleo do Iraque.
No próximo dia 22, dois dias depois da cimeira, faz precisamente vinte
anos que o Parlamento Europeu aprovou uma resolução “protestando
vigorosamente contra o facto de certos meios militares da NATO se
terem arrogado o direito de levar à instalação de uma infra-estrutura
clandestina de informação e de acção na Europa (…) e pedindo aos
governos dos Estados membros o desmantelamento de todas as estruturas
clandestinas militares e paramilitares”, recordando que “nalguns
Estados membros, serviços secretos militares se viram envolvidos em
graves fenómenos de terrorismo ou de banditismo, como provaram
diversas investigações judiciais”. (DN, 23/11/1990).
Este escândalo que abalou a Europa há cerca de vinte anos é hoje do
domínio público, mas durante quarenta anos os altos comandos da NATO
na Europa (SHAPE), a CIA, o MI6 (serviços secretos britânicos),
organizaram atentados terroristas recorrendo a ex-nazis e a grupos de
extrema-direita, para incriminar comunistas e anarquistas. A própria
viúva de Aldo Moro, durante o julgamento das Brigadas Vermelhas,
acusadas do assassinato do líder do Partido da Democracia Cristã
(cinco vezes primeiro-ministro) mentor do “Compromisso Histórico” com
o PCI (que em 1972 tinha 27% dos votos), sugeriu que procurassem os
verdadeiros assassinos no seio da CIA e dos maçons. Referia-se à loja
maçónica P2, organização neofascista chefiada por Lício Gelli,
ex-membro dos Camisas Negras, de Mussolini, que haveria de aparecer
ligada ao Vaticano no escândalo da falência fraudulenta do Banco
Ambrosiano, e seria acusado pelo atentado bombista na Gare de Bolonha,
em Agosto de 1980, que matou 80 pessoas e feriu mais de 150 (na
altura, a polícia acusou um anarquista pelo massacre de Bolonha, que
acabaria defenestrado após um interrogatório).
O escândalo rebentou quando um juiz italiano que investigava
atentados terroristas na década de setenta, descobriu, em Outubro de
1990, em documentos dos serviços secretos, indícios de um exército
paralelo a operar no país. Convocados pelo Senado, o primeiro-ministro
Giulio Andreotti e o presidente Francisco Cossiga confirmaram a
existência, desde os anos cinquenta, de uma organização clandestina de
guerrilha anti-comunista para impedir a ascensão eleitoral do PCI.
O ex-director da CIA, William Colby, confirmou as operações
clandestinas “Stay Behind”, desde 1950/51, em todos os países da
Europa , incluindo a Turquia e não membros da NATO, como a Espanha
(que só aderiu em 1982), a Áustria, a Suécia, a Suiça e a Finlândia,
alegadamente para impedir uma eventual invasão soviética: “ Os
americanos deviam ter condições para accionar bandos bem organizados e
armados de civis e militares”. Foi o próprio Secretário-Geral da NATO,
Manfred Woerner, quem confirmou, em Novembro de 1990, de passagem por
Lisboa, a existência da “Operação Gládio” em Itália. Para além do
massacre de Bolonha, a NATO é responsável pelos atentados no Banco de
Agricultura de Milão, em 1969, onde uma bomba matou 16 pessoas e feriu
88; pelo atentado na vila de Peteano que matou 3 carabinieri e serviu
para perseguir as Brigadas Vermelhas (só dez anos mais tarde o juiz
Casson provou ter sido cometido pelos neo-fascistas da Ordine Nuovo,
protegidos pelos serviços secretos militares, integrados na
“estratégia de tensão” que usava “falsas bandeiras”, para comprometer
forças de esquerda ); pelo massacre da Piazza Fontana, Milão, em
1969, que provocou 16 mortos, para além de muitos outros assassinatos
e golpes de Estado.
Em 1964, a denúncia de dois jornalistas fez abortar um golpe fascista
com o nome de código “Plano Solo”, planeado pelo general De Lorenzo,
comandante dos carabinieri que também controlava os serviços secretos
e a “Operação Gládio”, que levaria “só” 20 mil carabinieri a
sequestrar e fazer desaparecer 731 dirigentes e activistas dos
partidos comunista e socialista, de outros partidos de esquerda,
sindicalistas, jornalistas, escritores e militares que não aderissem
ao golpe que seriam levados para um campo de concentração na Sardenha.
Três anos mais tarde um golpe semelhante foi bem sucedido na Grécia,
impondo a ditadura dos coronéis.
Depois da reunificação alemã, democrata-cistãos e social-democratas
acusaram-se mutuamente de serem coniventes com a “estratégia de
tensão” da NATO que, em 1981, levou um jovem neonazi a matar 13
pessoas e ferir 200 num atentado durante a festa da cerveja,
“Oktoberfest”, em Munique. Um relatório de 1990 do Parlamento belga,
concluiu que os autores de atentados terroristas na Bélgica, nos anos
80, como o ocorrido num supermercado onde quatro homens dispararam
sobre homens, mulheres e crianças (oito mortos e oito feridos), eram
militantes da extrema-direita e “tinham impunidade garantida”. Mas em
ambos os países as culpas começaram por ser atribuídas à esquerda, o
que favoreceu o poder da direita e do “bloco central”.
Em Portugal, esta organização clandestina da NATO camuflou-se com a
agência de informações Aginterpress, ligada à PIDE, mas mais dedicada
a eliminar opositores ao regime ligados aos movimentos de libertação
das colónias. Há indícios de que tenha estado por detrás dos
assassinatos de Amílcar Cabral, de Eduardo Mondlane e de Humberto
Delgado.
Nem mais um cêntimo para suportar as guerras da NATO.
Carlos Vieira
terrorismo de estado no país basco
“Uma coisa são os negócios outra os direitos humanos”, respondeu, sem pudor, Filipe González, quando era primeiro ministro de Espanha, a um jornalista que o questionou por vender armas à ditadura indonésia que massacrava o povo de Timor Leste. Cavaco, a seu lado, não ripostou.
O mesmo ex-líder do PSOE deu no passado Domingo, uma entrevista ao “El País”, onde, com a mesma desfaçatez, confessou que só não deu ordem para “fazer ir pelos ares” toda a direcção da ETA, reunida em França, por recear as implicações para as relações franco-espanholas (na época a França não cooperava como hoje contra a ETA, por recear que a luta armada independentista alastrasse para o país basco francês), mas que ainda tem dúvidas se teria decidido bem. Hoje, Gonzalez está a ser responsabilizado, da direita à esquerda, por ter “confessado” ser o responsável máximo da “guerra suja” do governo espanhol contra os independentistas bascos, através dos GAL (Grupos Antiterroristas de Libertação) que de 1983 a 1987 assassinaram 27 pessoas, incluindo um médico pediatra, dirigente da coligação eleitoral Herri Batasuna, 5 inocentes abatidos por engano e torturaram, sequestraram e feriram muitos outros, incluindo duas meninas que se encontravam num bar em Bayona, metralhado por mercenários.
Recentemente, mais de 600 personalidades internacionais ligadas à política, à cultura e a outras actividades sociais, como o argentino Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, e os escritores Andrés Sorel e Alfonso Sastre ( Prémio Nacional de Literatura de Espanha), subscreveram um manifesto pedindo ao governo espanhol a libertação do preso político basco Arnaldo Otegi, defensor da paz em Euskadi, que ainda no mês passado, em entrevista ao El País, afirmou que “a estratégia independentista é incompatível coma violência armada”.
Em Setembro, 5 organizações políticas bascas e 25 agentes sindicais e sociais assinaram um acordo histórico, em Gernika, para um cenário de paz e soluções democráticas para o conflito entre o País Basco e o Estado espanhol. Falta uma resposta positiva de Madrid, para variar.
outros atentados aos direitos humanos
Na Birmânia, onde 1/3 da população vive abaixo do limiar da pobreza, as recentes eleições foram uma farsa. Aung San Suu Kyi, Nobel da Paz, dois dias depois de ter sido libertada, apela a uma revolução pacífica no seu país. Suu Kyi esteve em prisão domiciliária 15 dos últimos 21 anos, data em que o seu partido ganhou as eleições para o Parlamento e o governo militar decidiu corrigir o resultado eleitoral.
Na China continua preso o dissidente Liu Xiaobo, a quem foi atribuído o Nobel da Paz deste ano. A Amnistia Internacional organizou, no passado domingo, uma manifestação de protesto, em frente ao Mosteiro dos Jerónimos, onde o presidente da China estava a ser recebido pelo nosso governo. Mas o governador civil de Lisboa, António Galamba, proibiu a manifestação no local, obrigando-a a deslocar-se para junto à Torre de Belém, longe de Hu Jintao. Uma vergonha a que não será alheia a compra pela China da dívida pública portuguesa.
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